Andragogia: o que é e por que o treinamento escorre

    O que é andragogia

    A andragogia é o ramo da ciência que se dedica a compreender como os adultos aprendem. Adultos não aprendem como crianças, e não adianta forçá-los!

    O termo foi consolidado por Malcolm Knowles em 1970. O adulto chega com experiência, decide sozinho o que vale o seu tempo e só aprende o que consegue usar.

    Parece óbvio. Mesmo assim, a maioria dos treinamentos corporativos ainda é desenhada como uma aula para crianças: alguém fala, os outros escutam, e no fim todos respondem a uma avaliação de satisfação. O conteúdo pode ser excelente. Ele simplesmente não entra.

    Para entender por quê, pense em uma esponja.

    A metáfora da esponja

    Imagine uma esponja, daquelas bem absorventes. Essa é a criança. Derrame sobre ela uma jarra de tinta guache azul, bem diluída. Esse é o conteúdo da vida: escola, família, trabalho, acertos e tropeços. O que acontece com a esponja? Ela fica encharcada de azul. Esse é o adulto.

    Agora essa esponja precisa receber uma jarra de tinta branca. Esse é o conteúdo do seu treinamento. Se você derramar o branco sobre a esponja, ele será absorvido? Não. Vai escorrer. É o que está acontecendo, neste exato momento em que você lê, em milhares de salas de treinamento.

    Para que o branco entre, o que é preciso fazer antes? Espremer. E aqui está o ponto: ninguém espreme a esponja por ela. A metodologia de ensino não torce o adulto. Ela cria as condições para que ele mesmo se esprema.

    E o azul que sai não vai para o lixo. Ele vai para a mesa. É a experiência de cada participante, colocada à vista do grupo, examinada, comparada. Na andragogia, esse azul é o principal material da aprendizagem.

    Mesmo depois de espremer bem, o branco absorvido não ficará 100% branco. Teremos nuances de azul: para cada pessoa, um azul diferente diante do mesmo branco. Esse é o processo grupal. Cada um leva o seu tom, e ele varia conforme a capacidade de espremer a própria esponja. Essa capacidade depende de segurança, de autoestima e de quem está conduzindo a sala. Volto a isso mais adiante.

    Os 6 princípios da andragogia

    Knowles organizou a andragogia em seis princípios. Listar todos é fácil. O difícil é reconhecê-los numa sala real, e perceber quando estão sendo ignorados.

    PrincípioO que dizComo aparece na salaO erro mais comum
    1. Necessidade de saberO adulto precisa entender por que vai aprender algo antes de aprenderO grupo descobre, logo no início, o custo de não saberComeçar pelo conteúdo e explicar a utilidade no fim, se sobrar tempo
    2. AutoconceitoO adulto se vê como responsável pelas próprias decisõesO participante escolhe caminhos, não só responde a perguntasTratá-lo como aluno que precisa ser controlado
    3. ExperiênciaA experiência acumulada é o principal recurso de aprendizagemO azul vai para a mesa e vira material da aprendizagemIgnorar o que o grupo já sabe, ou tratar como obstáculo
    4. ProntidãoO adulto aprende o que precisa para lidar com a vida realO treinamento parte de situações que o grupo vive agoraConteúdo genérico, igual para qualquer empresa
    5. Orientação para problemasO adulto aprende melhor resolvendo problemas do que acumulando temasCasos, dilemas e decisões no lugar de tópicosUma sequência de slides organizada por assunto
    6. Motivação internaO que move o adulto é sentido, autoestima e realização, mais do que recompensa externaO participante sai querendo aplicar, não só aprovadoApostar em certificado, brinde e nota como motivação

    Andragogia x pedagogia

    A diferença não está na idade do público. Está em quem detém o conhecimento e em quem decide o que importa.

    AspectoPedagogiaAndragogia
    Quem conduzO professor decide o quê, como e quandoO facilitador cria condições; o adulto decide o que vale
    Experiência do participantePouca, pouco consideradaPrincipal recurso da aprendizagem
    FocoTemas e conteúdosProblemas e situações reais
    MotivaçãoNota, aprovação, recompensaSentido, aplicação, autoestima
    Papel de quem conduzEnsinarFacilitar
    Como se medeProva e satisfaçãoMudança de comportamento observável

    Por que conhecer a andragogia não basta

    Conhecer os seis princípios é fácil. Qualquer instrutor os recita. Por que, então, tantos continuam dando aula expositiva para adultos?

    Depois de mais de 15 mil horas em sala, pude constatar que há diversos elementos que interagem entre si e que, juntos, vão interferir na aprendizagem.

    O modelo tradicional de educação parte de um pressuposto que nem sempre é válido: a aprendizagem só ocorre quando há, necessariamente, transferência de conteúdos de quem ensina para quem aprende.

    A andragogia preconiza o contrário, uma relação horizontal, em que o azul do participante tem valor. Essa relação, de uma certa forma, afeta a "posição" do educador. A hierarquia é questionada. Quem aprende muitas vezes é visto como aluno, aquele que é incapaz de buscar o próprio alimento, ou seja, um indivíduo incapaz.

    Na andragogia, o adulto é valorizado, seu repertório é associado ao processo de ensino e aprendizagem, seus erros e acertos não são julgados, são aceitos.

    Diante disso, há três instâncias que devem ser consideradas em uma metodologia de ensino para adultos: a andragogia, como vimos, o processo grupal e a postura de facilitação.

    A andragogia

    É ela que decide o que entra na sala: situações reais, problemas que valem o tempo de quem está ali e, principalmente, o azul de cada participante. O conteúdo continua importante. Só que ele deixa de ser o ponto de partida.

    O processo grupal

    Um grupo não é a soma das pessoas que estão na sala. Nas primeiras horas, cada participante observa, mede e decide o quanto vai se expor. Ninguém espreme a esponja diante de quem ainda não conhece.

    Por isso o clima do grupo não é detalhe, é condição. Quando há segurança, o azul de um provoca o azul do outro, e o grupo passa a aprender com o que cada um trouxe.

    A postura de facilitação

    Todo facilitador já viveu isto: a pergunta que desmonta o roteiro, o participante que sabe mais do que você sobre aquele assunto, o silêncio que parece durar minutos. O que você faz nesse instante diz mais sobre a sua metodologia do que qualquer slide.

    Nesses momentos, o impulso natural é retomar o controle. A andragogia pede outra coisa: sustentar a pergunta, reconhecer o que o grupo sabe, abrir espaço para o que não estava previsto. Não é simples, e não se aprende lendo. É uma postura que se constrói com prática, com olhar de quem já passou por isso e com tempo.

    Andragogia nas empresas: como aplicar

    Um treinamento andragógico se reconhece antes do primeiro slide. Use estas perguntas para avaliar o próximo programa da sua empresa:

    • O objetivo está escrito como comportamento observável, e não como tema?
    • Os participantes sabem, logo no início, o que ganham e o que perdem ao aprender isso?
    • O desenho parte de situações reais daquele grupo, e não de um conteúdo padrão?
    • Há mais tempo para o grupo trabalhar do que para o facilitador falar?
    • A experiência dos participantes é usada como material, e não apenas ouvida?
    • O facilitador foi preparado para conduzir, e não só para apresentar?
    • A avaliação mede mudança de comportamento no trabalho, e não só satisfação?

    Se a maioria das respostas for não, o conteúdo está escorrendo. E o investimento vai junto.

    Quem escreve

    Celso Garcia, PhD (USP). Psicólogo, PhD em Psicobiologia pela USP, mestre em Administração, especialista em treinamento e desenvolvimento e fundador da Pensare, em 1998. Entrei no Empretec (ONU/PNUD) como participante, virei facilitador e depois formador de facilitadores.

    • Mais de 15 mil horas facilitando grupos
    • Mais de 120 turmas do Empretec
    • Mais de 800 facilitadores formados
    • Autor da Academia Andina de Andragogia, aplicada em países da América Latina
    • Trabalho citado em um Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU
    • Professor em MBAs da FGV

    A andragogia não chegou para mim pelos livros. Os livros deram nome ao que eu já via acontecer em sala.

    Perguntas frequentes

    Quem criou a andragogia?

    O termo surgiu na Alemanha, no século 19, com Alexander Kapp. Quem o transformou em teoria da educação de adultos foi o americano Malcolm Knowles, em 1970.

    Andragogia serve só para treinamento presencial?

    Não. Os princípios valem para cursos online, mentorias e aprendizagem no trabalho. O que muda são as técnicas, não a lógica.

    Qual a diferença entre andragogia e heutagogia?

    Na andragogia, o facilitador ainda estrutura o processo. Na heutagogia, o próprio adulto conduz toda a sua aprendizagem.

    Como a andragogia aumenta o retorno de um treinamento?

    Porque troca a medida de satisfação pela mudança de comportamento no trabalho. Se nada muda, o treinamento foi custo, não investimento.

    Onde a andragogia vira prática

    PAFF: Programa de Aperfeiçoamento na Função Facilitador.

    Para quem conduz treinamentos e quer parar de ver o conteúdo escorrer.

    Conheça o PAFF

    CORE.

    Para quem trabalha com gente e precisa criar programas de desenvolvimento e avaliar seus resultados.

    Conheça o CORE

    Quer aplicar a andragogia na sua empresa?

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